União Consciente com o Deus Pessoal

Na parte teórica desta obra didática eu citei o conceito de Deus, e o mago que já estiver bem adiantado em seu desenvolvimento poderá passar a ocupar-se da concretização desse conceito. Antes de começar a trabalhar nesse último parágrafo de seu desenvolvimento, o mago deverá examinar se ele realmente já domina totalmente a instrução da alma de todos os graus, se ele alcançou o equilíbrio mágico a enobreceu sua alma a ponto de permitir que a divindade more nela. Muitas religiões falam da ligação com Deus na prática; a maioria delas defende o ponto de vista pessoal de que quando se faz uma oração a Deus sob forma de um pedido, uma devoção ou um agradecimento, então já se consegue estabelecer essa ligação. Para o mago que até agora trilhou o árduo caminho do desenvolvimento, essa afirmação naturalmente é insuficiente.

Para o mago, seu Deus é o ser mais elevado, mais verdadeiro a mais justo que existe. Por causa disso, logo no começo da iniciação, na sua evolução, o mago respeitou, obedeceu a seguiu a justiça relativa às leis universais, e é nessa justiça também que deve ser entendido o conceito de Deus. O mago seguidor dessa ou daquela religião, independentemente se for a religião cristã, judaica, budista, maometana, hindu, brahmane, ou alguma outra casta religiosa, a seguidor também do caminho da iniciação, deverá, sem exceções, respeitar a justiça universal das leis de seu conceito divino. No seu ideal mais elevado o Cristão vai venerar o próprio Cristo e reconhecer nele as quatro características básicas, as quatro qualidades ou aspectos básicos que se manifestam na onipresença. Essas quatro características básicas são: a onipotência, a sabedoria ou conhecimento universal, o amor universal ou a bondade, e a imortalidade.

O mago nunca vai encarar o seu Cristo como manifestação provida de uma única qualidade, mas também, relativamente às leis universais análogas aos quatro elementos, venerá-lo como a divindade suprema. O mesmo vale para o adepto do budismo, ou qualquer outra doutrina religiosa. Quando o mago trabalha corretamente a torna-se amadurecido do ponto de vista mágico, ele passará a classificar seu princípio divino nesses quatro fundamentos com suas características básicas, correspondentes aos elementos; esses quatro aspectos básicos de sua divindade representarão sua visão divina suprema. A idéia de seu Deus não precisa estar ligada a uma pessoa viva ou que já viveu, ela pode ser simbólica. Basicamente é indiferente se o mago imagina, como símbolo do seu Deus supremo, Cristo, Buda, um deva, um sol, uma luz, uma chama, ou qualquer outra coisa. O que importa nesse caso não é a idéia em si, mas a qualidade que ele imprime à sua idéia. De qualquer modo, qualquer religião - visão de mundo tem de ser, para o mago, a idéia do conceito divino supremo, amoroso, precioso a digno de devoção, acima do qual não existe mais nenhum outro Deus.

O seu relacionamento, ou ligação com a sua divindade, com o seu Deus, pode ser apresentado de quatro maneiras: 1. Do modo místico-passivo; 2. Mágico-ativo; 3. Concreto; e 4. Abstrato. O verdadeiro mago deverá dominar todas as quatro formas, mas ficará a seu critério pessoal o tipo ou a forma que escolherá para a sua ligação futura. A forma místico-passiva de ligação com Deus é a mais freqüente entre os santos a beatos, para os quais, num arrebatamento ou êxtase, revelou-se o princípio divino. Mas assim o mago não saberá de que forma Deus se revelou a ele; então o tipo de revelação se expressará de acordo com sua visão suprema. Para o cristão ela terá a forma de qualquer símbolo fixo, como o formato do próprio Cristo, de uma pomba branca, do Espírito Santo, ou o formato de uma cruz. Mas isso não tem muita importância. O principal nesse caso é a qualidade ou característica da divindade que se manifesta à pessoa. O quão profunda, forte a penetrantemente Deus se revelará a cada um, depende da sua maturidade espiritual a anímica.

O segundo tipo de revelação divina é a mágico-ativa, condizente com a maioria dos magos. O mago instruído tenta aproximar-se ou relacionar-se com a sua divindade através de invocações. Nesse caso também podemos falar de uma forma extática, porém esta não surge como um fenômeno paralelo, como no tipo de revelação anterior, mas foi induzida conscientemente, de grau em grau. Nesse método, ou tipo de revelação, o interior ou espírito do mago eleva-se até a metade do caminho em direção a Deus, a Deus vem ao seu encontro pela outra metade. A invocação de Deus nesse método mágico-ativo é teúrgica, verdadeiramente mágica, e o mago só deverá se permitir realizá-la quando alcançar de fato a verdadeira maturidade.

Tanto a invocação divina místico-passiva quanto a mágico-ativa poderão, por seu lado, ocorrer de forma abstrata ou concreta. A invocação concreta consiste em imaginar a divindade sob uma forma determinada, enquanto que a abstrata baseia-se na idéia divina abstrata das qualidades de Deus. A prática de cada uma das possibilidades de revelação do conceito divino é extremamente simples. Se o mago meditar sobre o seu Deus a suas respectivas qualidades, mergulhado em seu interior, portanto, no princípio do Akasha, ou seja, em transe, e o tão esperado símbolo divino lhe aparecer durante essa meditação, então podemos falar de um tipo místico-passivo de revelação divina. Porém, se através de sua meditação com imagens o mago invocar em si ou no exterior cada uma das qualidades de sua divindade, indiferentemente se são imaginadas numa forma concreta ou abstrata, então trata-se de uma invocação divina mágico-ativa.

Quem já chegou até aqui em seu desenvolvimento não só poderá alcançar a ligação divina do tipo místico-passivo, mas também a do tipo mágico-ativo. Por isso é que dou preferência aos métodos das formas concreta a abstrata que o mago já consegue dominar. Um bom exercício prévio para a manifestação concreta da divindade consiste em colocar diante de si uma imagem, figura ou símbolo da divindade venerada. Então o mago deverá sentar-se em sua asana a fixar a imagem com tanta intensidade a por tanto tempo até que, fechando os olhos, a imagem de Deus lhe apareça. E também, ao fixar a imagem de sua divindade, ele a verá depois várias vezes reproduzida numa superfície branca próxima. Essas visualizações da divindade são um bom exercício prévio, pois ele ajuda o mago a produzir o surgimento da imagem de seu Deus à sua frente.

O mago deverá repetir esse exercício várias vezes, até conseguir imaginar a sua divindade venerada a qualquer momento, em qualquer lugar a em qualquer situação, como se ela estivesse ali, viva. Só depois disso é que ele poderá conectar essa imagem com as respectivas características divinas. No início ele não vai conseguir ligar logo as quatro características básicas divinas mencionadas, a sobre as quais ele meditou nos graus anteriores, todas de uma vez, com a imagem formada. Por isso ele deverá dedicar-se a cada uma delas separadamente, uma após a outra. A concretização da característica divina na imagem idealizada é muito importante a deverá ser repetida tantas vezes até que realmente a divindade do mago, provida das quatro características, seja por ele percebida.

Quando isso tiver sido alcançado, então o mago deverá pensar na imagem de sua devoção não como uma imagem, mas como alguém vivo, atuante a irradiante, com tanta intensidade como se o seu Deus, a sua divindade pessoal estivesse à sua frente, vivo a existente de fato. Essa é a assim chamada ligação concreta com a divindade, externa a si mesmo. Quanto mais freqüentemente ele usar esse método tanto mais forte a eficaz surgirá diante dele essa divindade, de forma visual a perceptiva. Assim que o mago sentir que tudo o que ele sabe sobre o conceito e a realização de Deus foi colocado na sua imagem invocativa, então deverá imaginar que essa divindade viva que surge à sua frente em todo o esplendor, com todas as quatro características básicas, toma o seu corpo, portanto entra nele a assume o lugar da sua alma.

Isso deve ser repetido pelo mago muitas vezes, até que ele sinta a divindade dentro de si com tanta força a ponto de perder a sua consciência pessoal a sentir-se a si mesmo como a divindade imaginada. Depois de várias repetições dessa unificação com a divindade o mago deverá assumir as características concretizadas na imagem por ele idealizada. Então, não é mais o eu pessoal que atua através dele, mas a sua divindade. Ele vivencia a ligação divina concreta de seu Deus pessoal a não é mais a sua consciência, a sua alma, ou o seu espírito que falam pela sua boca, mas o espírito manifestado pelo Deus. Aí então o mago se liga com o seu Deus, a depois de muito tempo nessa ligação ele mesmo se torna Deus, compartilhando de todas as características básicas de sua divindade.

O método da ligação divina concretizada é muito importante para a prática mágica subseqüente, pois o mago deve estar em condições de ligar-se, desse mesmo modo, com qualquer divindade, de qualquer religião. Essa prática é necessária na magia de evocação e na teurgia, pois é a única forma de que o mago dispõe para promover a ligação com uma divindade a qualquer momento, a manter os seres subordinados sob a sua vontade. Para todos parecerá óbvio que desse modo o mago será capaz de ligar-se ao princípio divino com tanta força, que várias energias da divindade concretizada com a qual ele se ligou animicamente também se incorporam nele como característica, se já não estiverem ligados diretamente à imaginação. Em sua maioria essas características divinas são definidas, por nós iniciados, como capacidades ou energias mágicas, ou Siddhis.

Ao dominar bem a técnica da ligação divina concreta com a sua divindade imaginada, o mago deverá começar a concretizar a forma abstrata de ligação com o seu Deus. No início ele poderá conectar a sua idéia a uma idéia auxiliar, como, por exemplo, à luz, ao fogo; porém mais tarde isso também deverá ser deixado de lado, a ele não deverá projetar nada além da qualidade, primeiro externamente a depois internamente. Nesse caso também a qualidade da característica divina deve ser conectada primeiro ao órgão correspondente ao elemento, para que, por exemplo, a onipotência seja sentida abstratamente na cabeça, o amor no coração, etc. Através da repetição constante desse exercício poderemos nos identificar com a idéia abstrata de Deus de tal forma que não necessitaremos mais da imaginação de uma parte ou de uma região do corpo. Poderemos conjugar as quatro características básicas numa única idéia que formará a conscientização interna de nosso conceito divino na forma suprema.

Através da repetição freqüente a manifestação de Deus aprofunda-se tanto que chegamos até a nos sentir como deuses. A ligação com Deus deverá ser tão profunda que durante a meditação não deverá existir nenhum Deus fora ou dentro da pessoa; sujeito e objeto deverão estar tão fundidos um no outro que não haverá nada além de: "Eu sou Deus", ou como diz o hindu em seus Vedas: "Tattwam asi - Isto é você!". Ao chegar a esse ponto o mago encerra o seu desenvolvimento mágico em forma astral, e nos exercícios seguintes ele só precisará aprofundar as suas meditações a fortalecer a sua divindade.

O Relacionamento com as Divindades

Ao chegar ao ponto de conseguir ligar-se com qualquer divindade, qualquer inteligência, ou qualquer ser divino, o mago estará em condições de atuar na esfera desejada, não como mago, mas como Deus. Com isso termina para o mago a instrução mágica da alma do último grau. Não tenho mais nada a dizer sob esse aspecto, pois o mago se tornou uno com Deus, a aquilo que ele expressa ou ordena, é como se o próprio Deus o tivesse expresso ou ordenado; ele compartilha de todas as características básicas da divindade à qual está ligado.