Sob o conceito de clarividência, define-se geralmente o "segundo rosto", como diz o povo, ou a visão além do tempo e do espaço — seja ela do passado, presente ou futuro — ou então a visão de desencarnados e outros seres. Só poucos autores descreveram essa capacidade psicologicamente ou de um outro ponto de vista qualquer, por isso a nossa tarefa será estudar a clarividência com muita precisão. Antes de qualquer coisa, o mago perceberá que existem vários tipos de clarividência. O primeiro deles é a clarividência nata, conferida ao seu portador já no mundo invisível, ou transferida à sua existência atual por encarnações anteriores. Esse tipo de clarividência é o melhor, mas poucas pessoas são clarividentes natas e têm essa capacidade tão desenvolvida a ponto de poderem usá-la na prática quase imediatamente.
Um outro tipo de clarividência expressa-se de forma autônoma, em função de um desvio involuntário dos elementos no espírito, e é encarada como uma manifestação patológica. Traumas decorrentes de casos de doença também podem provocar visões clarividentes. Geralmente isso se manifesta na pessoa quando ela sai de seu equilíbrio normal devido a um infarto, um colapso nervoso ou então um declínio físico, psíquico ou mental; assim, de forma mais ou menos nítida, mais ou menos pura, surge uma espécie de clarividência como efeito colateral. Para o mago prático, esse tipo de clarividência é indesejado, pois cedo ou tarde ela provoca um colapso total, não só acarretando a perda dessa capacidade, mas também exercendo influências prejudiciais à saúde que podem até levar a um fim precoce.
Esses clarividentes são dignos de pena, principalmente quando pretendem que seus dons sejam fenomenais. Nessa categoria incluem-se aquelas pessoas que, possuindo alguma tendência mediúnica, obtiveram essa capacidade através da evocação de um ser. Esse método também não é aconselhável para o mago, pois essas pessoas acabam enlouquecendo. Muitas das pessoas internadas nos asilos devem sua triste situação à prática indiscriminada do espiritismo, não importando se os motivos que lhes serviram de pretexto foram sérios ou se eles se limitaram a uma simples curiosidade.
Outro tipo de clarividência induzida, que também pertence a esse grupo, é a produção forçada dessa capacidade através de drogas, como o ópio, a maconha, a mescalina (Peyotl) e outras. O mago não deverá dar-lhe atenção, pois ela provoca a dependência e bloqueia os preceitos morais e espirituais, a vontade e, finalmente, toda a energia nervosa, o que naturalmente terá reflexos muito negativos em sua saúde e em sua evolução. O Oriente testemunhou milhões de casos, e no Ocidente, assim como em outros países civilizados, eles também ocorreram em enorme quantidade.
Com certeza o mago terá a possibilidade, enquanto não tiver ainda atingido a maturidade, de convencer-se de um modo ou de outro da existência da clarividência e de outras manifestações sobrenaturais; mas geralmente — e este é o ponto mais vulnerável — ele não se limita à simples constatação, mas faz dela um hábito. Essas pessoas então caem na mesma situação de inúmeras outras que sucumbiram à perplexidade e à confusão. Por essa razão, tenho o cuidado de não descrever nesta obra nenhum método que possa levar o mago a realizar experiências com os meios citados, mas indico só métodos totalmente inofensivos, que provocam o surgimento da clarividência automaticamente em função da maturidade espiritual do aluno, isto é, como manifestação natural de uma evolução adiantada.
Outro tipo de clarividência é aquela que surge em função do enfraquecimento ou da paralisia temporária de um órgão dos sentidos, como nesse exemplo seria a visão. Os livros que ensinam a clarividência através da fixação do olhar em um objeto, um espelho mágico, uma bola de cristal ou em pedras preciosas são até bons, mas não são adequados a todas as pessoas. Esses meios auxiliares só são úteis para a vidência nas mãos de um mágico instruído, e não devem produzir essa capacidade através da influência no nervo óptico, mas somente servir como meios auxiliares de uma visão conscientemente instruída. Do ponto de vista mágico, nenhum meio auxiliar, por mais bem fabricado e prestigiado, é perfeitamente adequado para produzir o dom da clarividência. Esta depende exclusivamente de: 1. O dom natural; 2. A evolução psíquica e astral, além da maturidade do respectivo mago.
Os outros capítulos, em que descrevo a produção de condensadores fluidos, também contêm indicações de espelhos mágicos e outros meios auxiliares. Durante o seu estudo, o mago deve saber que todos os meios auxiliares aqui enumerados são só instrumentos, mas não o fator em si que promove o resultado desejado, ou seja, a autêntica clarividência. Finalmente mencionarei o último tipo de clarividência, que surge em função de um desenvolvimento mágico correto, e que é provocado através do desdobramento sistemático dos sentidos, no nosso caso a visão clarividente. Tomei a decisão de apresentar nesta obra um método mágico secreto ainda não mencionado em nenhum outro livro, mas que é extremamente prático do ponto de vista hermético e das leis da analogia dos elementos.
Antes de descrever o exercício em si, devo avisá-los de que neste caso se trata da luz. Como todos sabem, a luz é um aspecto do fogo e, por isso, análogo à visão e à vontade. Nessa experiência, para alcançarmos o objetivo desejado, devemos aprender a imaginar a luz intensamente, isto é, visualizá-la. Assuma a sua posição habitual (asana) e imagine-se sugando para dentro de seu corpo, através da respiração pelos pulmões e pelos poros ou só imaginativamente, a luz universal, semelhante à nossa luz solar em brilho e forma. O seu corpo deve ser visto como um espaço vazio, preenchido pela luz branca, brilhante e universal.
Nessa luz do corpo é que você deverá concentrar a característica da clarividência, i.e., deverá imaginar que a luz penetra tudo, vê tudo e transpassa tudo. Nem o espaço e nem o tempo são obstáculos para ela. Você deverá estar tão convicto da característica da luz que não terá nenhuma sombra de dúvida. Se você for religioso, será mais fácil acreditar que essa luz universal seja uma parte de Deus, que possui todas as características aqui descritas. Depois de ter sugado a luz para dentro de seu corpo, com as características aqui descritas, e sentir a sua tensão e força penetrante, então tente represá-la a partir dos pés e mãos em direção à cabeça, comprimindo-a de modo a concentrá-la nas íris de seus dois olhos.
Se lhe for mais conveniente, você poderá também preencher primeiro um olho e depois o outro. Existem magos que desenvolvem e vitalizam só um dos olhos para a clarividência, e deixam o outro livre. Isso pode ficar a critério do aluno, mas sou de opinião que é melhor tornar os dois olhos igualmente clarividentes. Depois que você realizou o represamento de suas duas íris, imagine que seus olhos passam a ter todas as propriedades concentradas na luz. Esse exercício deve durar no mínimo dez minutos, e quando você tiver certeza de que o seu olho preenchido imaginariamente com a luz universal passou a ter as características dessa luz, então deixe-a, novamente com a ajuda da imaginação, fluir diretamente do olho ao mar universal de luz, ou penetrar novamente em seu corpo na forma original e de lá dissolver-se na luminosidade do Universo.
Ambos os métodos aqui descritos são igualmente bons, e o sucesso é o mesmo. O importante é que o olho libertado da luz torne-se novamente capaz de ver normalmente. Isso é importante para que o olho astral desenvolvido magicamente não se torne tão sensível a ponto do mago não conseguir distinguir o que é captado pelo seu olho normal ou seu olho clarividente. Se o mago deixar de realizar a dissolução da luz concentrada, os seus olhos poderão permanecer clarividentes e ele terá dificuldade em diferenciar o que é material do que é espiritual. Por isso ele deve manter sua clarividência sob controle e só deixá-la exercer sua força quando lhe aprouver. Através da repetição constante desse exercício, o mago obterá uma habilidade tão grande nessa prática que conseguirá pôr em funcionamento o seu olho clarividente, o olho de luz, em poucos minutos. O olho assim preparado será capaz de ver tudo aquilo que o mago desejar ver (com o olho físico fechado ou aberto), numa bola de cristal ou de vidro, num armário polido ou num espelho mágico; seu olho clarividente enxergará tudo. A qualidade do que ele vê depende da pureza de seu ser.
Um excelente meio auxiliar, que produz um resultado mais rápido na clarividência e que também age no olho físico de modo favorável — para que as pessoas de vista fraca e que sofrem de moléstias da visão possam obter benefícios não só do ponto de vista mágico, mas também da saúde física — é a preparação de uma solução oftálmica de fogo. Os ingredientes são os seguintes:
1. Um grande frasco de água destilada.
2. Algumas flores de camomila (secas ou frescas).
3. Um pouco de eufrásia (Herba Euphrasia), também fresca ou seca.
4. Obtenha 7 a 9 pequenos galhos de aveleira ou de salgueiro. Eles devem ser desfolhados, cortados no mesmo comprimento e amarrados em feixe com um barbante. Depois o maço de varetas deve ser deixado ao sol, ao ar seco ou colocado num forno para secar.
5. Por último, ainda precisaremos de um pedaço de filtro de papel e um pequeno funil.
Providenciados todos os ingredientes, podemos começar com a preparação em si da solução oftálmica. Num recipiente limpo, despeje 1/4 de litro de água destilada, coloque-a ao fogo e, assim que começar a ferver, acrescente duas colheres de chá de flor de camomila e uma colher de chá de eufrásia. Deixe a solução ferver só alguns segundos, tire-a do fogo e cubra-a. Depois de cerca de dez minutos, despeje-a num outro recipiente purificado e, assim que esfriar, pegue o maço de varetas de aveleira ou de sabugueiro e acenda suas extremidades no fogo de alguma chama disponível, deixando-as arder lentamente. Depois mergulhe essas extremidades na solução preparada anteriormente; assim nós passamos para essa infusão — que podemos considerar como um condensador líquido — o elemento denso-material do fogo.
Esse condensador líquido deve então ser filtrado através do funil devidamente forrado com o papel filtrante e despejado num outro recipiente devidamente purificado. Essa filtragem é necessária para se eliminar qualquer resíduo, pedacinho de carvão ou cinza. Essa solução é então despejada numa vasilha ou num prato e colocada à frente da pessoa que vai usá-la. Inspire o elemento fogo em seu corpo através da respiração pulmonar ou dos poros, ou de ambas simultaneamente, e preencha-o completamente com esse elemento. Nessa projeção não deve ser dada muita atenção à intensidade do calor, mas ao fato de o elemento fogo ser o portador do desejo que lhe foi transposto imaginativamente. Quando seu desejo de fortalecer os olhos materiais e de manter o desenvolvimento do olho astral foi transposto ao elemento fogo, então você deverá projetar esse elemento através do plexo solar, de suas mãos ou mesmo de seu hálito, ao líquido à sua frente. Se você perceber que a projeção não foi suficiente, poderá repeti-la várias vezes, mas não mais de 7 ou 9 vezes.
Com isso, o condensador assim preparado tornar-se-á uma essência bastante eficaz, exercendo um efeito benéfico não só na visão, mas também fortalecendo, vitalizando e desenvolvendo os sentidos astrais. Esse condensador fluido deve ser colocado num frasco limpo e fechado, e guardado num local fresco. A solução oftálmica pode ser usada para o fortalecimento da visão ou para o seu tratamento mágico. Em casos de fraqueza visual grave, esse condensador fluido pode ser pingado nos olhos. Mas para a prática mágica, podemos usar um chumaço de algodão enrolado em gaze ou um pequeno retalho de linho puro para umedecer os olhos e ser usado como compressa durante a experiência da vitalização dos olhos com a luz.
Mais tarde, quando os olhos astrais estiverem suficientemente desenvolvidos, as compressas não serão mais necessárias e será suficiente realizar o represamento de luz nas íris. Depois de várias repetições, quando o olho físico já estiver bastante desenvolvido, só precisaremos concentrar nossa atenção no olho astral e no desejo de enxergar com ele. As compressas podem ser usadas depois também antes de dormir; a única desvantagem é que as pálpebras poderiam tornar-se supersensíveis por causa da infiltração do elemento fogo. Por isso é recomendável usar essas compressas só durante os exercícios. Essa operação mágica deve ser executada sem a presença de outras pessoas. Devemos tentar preservar a compressa e a essência por algum tempo, para que não tenha que ser renovada de uma experiência a outra e não caia em mãos indesejadas. Se o aluno realizar conscienciosamente todas as etapas descritas, ele poderá desenvolver seu olho clarividente de modo totalmente inofensivo em poucos meses, e numa previsão otimista até em poucas semanas. De qualquer forma, devemos adverti-lo para que não se vanglorie das capacidades adquiridas ou, pior, use-as para prejudicar seus semelhantes. Deve usá-las somente para o benefício da humanidade. O tempo e o espaço não serão obstáculos para ele, e para a sua visão clarividente não haverá nada que possa permanecer oculto.